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Eu não te encontrava em canto nenhum, embora a gente viva junto. Eis o grande perigo da convivência. Transformar o seu amante em um familiar. Este é o quarto onde os meus pais se tornaram irmãos, diz o poeta Fabián Casas. Que medo. Porque passo pelo dia ao seu lado. Você entra na cozinha, me vê cozinhando de pijama pandêmico; metade de um pijama, um suéter bastante digno, apto para o zoom, mas uma calça de mendigo. Não conversamos. Você checa o seu celular, deixou carregando na cozinha. Eu não sei onde você está, mas me sento com você para fazer contas. É preciso pôr em débito automático a conta de luz, porque no mês passado a gente não pagou. A sua cara séria, cansada, esse ar meio severo que você ganha quando está com os cabelos presos, a contadora do lar, a preocupação porque estamos gastando muito com o supermercado. Faz cinco dias que o Maxi chora de noite e acabamos, eu e você, dormindo com ele. Amanhece um só de nós na cama de casal. A metade vazia e o prazer de poder se esticar, ocupar o espaço dos lençóis, um luxo cheio de culpa nessa solidão. Mas você não está em canto nenhum. Te escuto como a uma estranha na sala, falando por telefone com a Fundação, sua amabilidade impecável, a doçura profissional, a inteligência dos seus feedbacks e conselhos, os silêncios e ao final a sua resposta. Tampouco sei quem é a que tira a roupa molhada da máquina de lavar, mas digo “eu penduro” e nesse circuito cotidiano e prático nem perdemos tempo em dialogar. Penduro a roupa, sério: os tamanhos de nós três no varal, as camisetas do pequeno Maxi que agora está na escola. Quem é a que abre a geladeira e olha o horizonte gelado, como que consultando um oráculo? E quem é o sujeito que sorri diante da tela, esbanjando simpatia para a sua turma, o professor que faz os alunos rirem, iluminado, o que desliga o computador e fica sério de novo, se ensombrece e não lhe sobra nem uma gota de ternura para ninguém, regozija-se em sua nuvem pessoal, aninhando-se no tédio? Serei eu, talvez, pode ser? Somos muitos neste apartamento, nós dois nos manifestando em nossos diversos papéis. Às 11h30 sou o handy man, com a broca, fazendo barulho para instalar dois porta-toalhas no banheiro. Você passa pelo corredor e me vê em uma pose indigna, de quatro, míope, procurando um parafuso que acaba de cair. Às 12h15, você é a jardineira da sacada, tirando o mato que cresce nos vasos, as mãos sujas de terra, com o dorso da mão você afasta os cabelos da testa. Estamos brigados, não sei exatamente por quê. Escrevo no celular uma mensagenzinha para a minha amante: 12h30? 12h30, o quê?, responde a minha amante. 12h30 te dou muitos beijos. Depois de uma pausa, ela me responde: Pode ser. Então tomo banho para me encontrar com ela, meu coração dispara, respiro fundo, me ensaboo, lavo com água o angustiado que sou, deixo a angústia ir pelo ralo. Tenho uma hora com ela antes de buscar o meu filho na escola. Saio do banho, te vejo já na cama do nosso quarto. Sorrimos. Sempre gostamos de nos mandar mensagens. Continua funcionando o truque, porque é como se falássemos com outra pessoa. Então entro na cama, entro no seu abraço. Seus beijos. Os corpos vão se reconhecendo. Sabem se encontrar melhor que nós. Descobrem-se, tiram camadas e camadas de zanga e frustração. Aqui estamos, meu amor. Agora, juntos, tudo o que somos, você e eu, simplificados na pele. Somos isto, este beijo. Aqui está você, minha vida, por fim te encontrei, me lembrei de como você era, como você é, como será para sempre, seus cabelos ondulando em raios sobre o travesseiro, descabelada, toda a luz no sorriso, esse sorriso que é o mundo para mim.
Leia mais (07/17/2021 – 23h15)

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